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Características dos Ballets Românticos

O romantismo foi um movimento artístico que perdurou na Europa, estando presente, não só em artes – como na música e na literatura -, mas também no ballet. Se foi um momento que a sociedade europeia estava vivenciando, o ballet não poderia deixa-lo de fora dos seus espetáculos.

 

Então, o ballet vai basicamente se apropriar das mesmas características românticas das outras artes e fazer montagens incríveis que vão apaixonar a plateia, de forma que até hoje serão reproduzidas incansavelmente. E é sobre essas características nos ballets que vamos tratar aqui.

 

1)    O figurino marcante da época: saia de tule + sapatilha de ponta

A saia de tule, feita por Eugene Lami, junto com a ascensão da sapatilha de ponta, vão dar a sensação da bailarina pareça flutuar no palco enquanto dança. Antes os figurinos eram mais pesados, com tecidos grossos e que só mostravam um dos pés da mulher, impedindo que ela fizesse tanta variedade de passos. Agora, com o romantismo, a saia é encurtada até os tornozelos e, embora tenha várias camadas, o tecido é mais leve, possibilitando, além dessa ideia de leveza, também a mulher fazer passos que eram só da seara dos homens: os pequenos saltos. Vai ser esse tutu que vai ficar conhecido como tutu romântico. A respeito das pontas, Carlos Blassis vai ser o primeiro a citar o seu uso no ballet e o primeiro ballet a usá-las vai ser La Sylphide, justamente com base nos ensinamentos de Blassis.

 

2)    A supervalorização da mulher

A mulher será sinônimo de delicadeza, leveza, graciosidade, um ser perfeito. Para isso, além do figurino e da ponta, a própria dança da mulher vai ter também essa função. Se antes o homem era quem era o centro das atenções nos espetáculos, agora é a vez da mulher brilhar. O homem vai ser agora, “um mero cavalheiro acompanhante”. A mulher é que é o verdadeiro destaque! Antes, os homens interpretavam os papeis femininos, travestidos e usando máscaras; no período romântico, o inverso ocorre: o ballet Coppélia vai ser um marco da decadência masculina no ballet, pois uma mulher (Eugenie Fiocre) é que vai interpretar o papel principal masculino do Franz.

 

3)    Valorização dos papeis principais e solistas

Aqui, além de ser a mulher que brilha em detrimento do homem, brilha também quem tem os papeis principais e solistas, de forma que o corpo de baile é mero pano de fundo do ballet. Quem vai dançar verdadeiramente e ter o grande destaque do ballet vai ser quem de fato quem tem os papeis principais e solos. Os corpos de baile não terão uma grande movimentação enquanto os solistas e primeiros bailarinos estiverem no palco. Um exemplo disso, será o segundo ato de Giselle. Enquanto o casal de primeiro bailarinos está fazendo o Adagio, o corpo de baile permanece em duas filas em cada lateral do palco imóveis como estátuas. Não deixa de ser um grande desafio para quem encara o corpo de baile, mas o destaque será do casal. Isso só será mudado com Petipá, que começa a fazer um corpo de baile que verdadeiramente tem presença em cena e, por isso, o seu mais famoso será o Reino das Sombras de La Bayadere.

 

4)    A supervalorização do amor romântico

O amor no período romântico está acima da razão, e ele é intenso e muitas vezes utópico ou inalcançável, como em Giselle, em que essa personagem perdoa Albretch, mesmo após ele ter mentido para ela, e, Giselle morre tragicamente e Albretch também, logo em seguida. Os dois não ficam juntos (ao menos, não em vida), mas o amor está sempre vivo.

 

5)    Presença de figuras etéreas

A mulher como ser perfeito e o amor inalcançável como ideal vão ser realçados com a presença de figuras etéreas nos ballets da época. Muitas vezes o homem vai se apaixonar por seres de outro mundo, como em La Sylphide, e esse amor não se concretizará. A presença dessas figuras vai também corroborar com uma característica muito marcante desse movimento: a contraposição entre o mundo real e o mundo espiritual, entre os seres humanos e os seres sobrenaturais, fictícios. Assim, vamos ter nos ballets românticos seres encantados como dríades, willis e fadas, bem como a presença do “ato branco” ou “ballet blanc”, em que vemos todas as bailarinas vestidas de branco num mundo que parece fugir do real (representando as figuras etéreas).

 

6)    Presença de tecnologia e de efeitos especiais

Antes do romantismo, não havia grandes inovações tecnológicas. A iluminação a gás acabava de surgir era ela que iluminava os palcos. Isso com certeza também serviu para criar o ambiente etéreo dos ballets românticos. Além disso, no ballet La Sylphide, se pôde ver a bailarina principal sendo levantada por fios para confirmar a ideia de que a bailarina estava realmente voando pelo palco.

 

 

7)    Valorização da natureza

Característica bastante marcante nas outras artes do período, também o será no ballet. Podemos ver, então, que muitas vezes a história do ballet será contada em campos e florestas, como Giselle, e ela será fundamental para contar essa história. Afinal, não faria tanto sentido um ballet com seres que têm asas se não se passasse numa floresta, como La Sylphide!

 

8)    Uso de divertissements

 

No período anterior, Noverre criou sua própria definição de espetáculo. Dentro dessa definição, todos os personagens teriam que ter relação com a história e todos os atos deveriam conter uma ação dramática. Isso começa a mudar com o romantismo. Agora, neste novo período histórico, vão ter sim algumas cenas dentro do espetáculo que servirão para mostrar para o público as habilidades específicas dos bailarinos, e também terão a função de divertir a plateia. Coppélia, que foi considerado o último ballet romântico, vai ser recheado de divertissements, como o próprio grand pas de deux do casal principal.

 

9)    Braços arredondados e de estilo próprio

Carlos Blassis vai escrever “O tratado elementar da dança” em que, dentre outras técnicas do ballet, vai ressaltar o uso dos braços nesta dança, sendo arredondados, e com muito epaulement, o movimento de ombros, originando novas orientações de corpo, como o croisé, e dando novas possibilidades às coreografias. Os braços da era romântica vão usar todos esses ensinamentos de Blassis para criar os personagens etéreos, com braços e o posicionamento do corpo levemente inclinado para a frente. Os braços bem arredondados vão ser uma característica bem marcante em La Sylphide.

 

10) Saltos femininos

É no período anterior que Marie-Anne Cupis de La Camargo curta as saias para que mulheres possam fazer entrechats, cabrioles e pas de basques. O período romântico mantém o cumprimento das saias, mas usa o novo material, o tule. Este vai dar mais leveza e propiciar os saltos femininos. Os saltos, que eram passos apenas masculinos, agora vão ser feitos também por mulheres. Em Giselle, uma das partes mais marcantes é quando a primeira bailarina faz uma sequencia de seguidos entrechats quatre. Esses saltos batidos vão ser mais uma marca da leveza da mulher nos ballets românticos.

 

O período romântico no ballet vai durar mais ou menos entre os anos 1830, tendo como marco inicial o ballet La Sylphide, e 1870, tendo o marco final em Coppélia. São outros exemplos de ballets do período: Grand Pas de Quatre, La Peri e O Corsário. Esses ballets realmente apaixonaram o público da época e continuam apaixonando até os dias atuais com características bem marcantes.