O que fazer quando a criança não quer entrar no palco?

Apresentações chegando e você que é professor, mãe ou pai, já se deparou com uma criança que simplesmente travou em casa, no camarim, ou até na coxia, se recusando a entrar no palco? Vamos entender o que está acontecendo com a criança nesse momento e ver o que você pode fazer para ajudá-la!

Muitas vezes a criança processa pensamentos que nem mesmo ela consegue saber que pensou, pois além de rápidos, são complexos para que ela verbalize, como: “será que vou saber meu lugar?” “o palco é muito grande” “essa luz me deixa nervosa” “e se alguém rir de mim?” “e se eu esquecer a coreografia?”. E ideias como essas acionam a amígdala cerebral, que liga o modo de alerta disparando cortisol e adrenalina no sistema nervoso, o que faz com que a criança fique com medo ou vergonha e que ela congele como uma forma de proteção.

Para ajudar a criança a sair dessa situação é preciso agir intencionalmente fazendo com que ela se acalme e conversando com ela! 

Uma criança com medo precisa de um adulto tranquilo para poder espelhar esse comportamento, e fazer o que chamamos de “co-regulação emocional”: ela começa a sentir o que o adulto está sentindo. Se na hora do desespero, o melhor que você puder oferecer para seu aluno/filho for uma expressão facial desesperada, um corpo agitado e uma voz intimidante; como a criança poderá se acalmar para regular os níveis de cortisol e adrenalina que estão inundando seu corpinho, e poder agir com coragem?

A emoção é um disparo neurofisiológico absolutamente incontrolável, assim como a vontade de ir ao banheiro. Não controlamos a emoção, mas podemos controlar o que faremos com ela!

Por isso, tenha uma expressão facial serena e seja empático para que a criança sinta-se segura ao seu lado. Não fique dizendo “não precisa ter medo” “vai ser legal” “todo mundo vai dançar” “a mamãe veio aqui pra te assistir” “você vai deixar o meu coração triste”. Se forçarmos, as chances de sucesso são pequenas e podemos inclusive gerar traumas para a criança; no entanto, se acolhermos e respeitarmos o tempo de cada uma, ela poderá encontrar uma motivação interna para ganhar coragem e dançar! Sendo assim,  experimente esses 4 passos para encorajar a criança:

1 – Acolhimento

Mostre para a criança que você vê que está difícil para ela. “Eu vejo que você está muito nervosa, né?” “Eu notei que você está assustada”

2 – Validação

Deixe claro que é normal que ela se sinta assim, muitas crianças se sentem inadequadas, achando que não poderiam sentir o que estão sentindo. Acontece que as emoções são incontroláveis e a questão não é o medo, mas sim o que a criança vai fazer com ele. “Tudo bem você ficar assim” “É normal sentir medo/ vergonha”

3 – Autorrelato

Mesmo que você crie algo para dizer, esse terceiro passo ajuda a criança a entender que ela não é a única. “Eu também costumava ter medo de subir no palco, sabia?” “Na outra dança, uma aluna minha também ficou assim” “

4 – Explicação e Solução

Ofereça alternativas para ajudar a criança a dançar apesar do medo: “…e você pode respirar fundo, beber esse golinho de água e me dar um abraço bem forte. Na hora do abraço, vou te passar toda coragem que você precisa para entrar lá, combinado?” “…e eu sei que você é capaz de tentar, gostaria de entrar de mãos dadas comigo?” “…e você se preparou muito para esse momento, tenho certeza que vai se divertir muito. Estou aqui para te apoiar”.

Vale também perguntar: “o que você gostaria de fazer para ganhar coragem?” As crianças nos surpreendem na simplicidade das soluções. Muitas vezes elas só precisam de acolhimento, saber que está tudo bem por sentirem medo, e elas mesmas acham a solução.

Boa sorte e ótimas apresentações para nós!

Escrito por: Marina Elias

Atriz e professora de Teatro da Petite Danse, pesquisadora Pós-Doutora pela Unicamp e professora do Departamento de Artes Corporais da UFRJ, atua nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Dança. Bacharel, Mestre e Doutora em Artes Cênicas pela UNICAMP. Membro do Conselho Científico da ANDA, Associação Nacional dos Pesquisadores em Dança, e Fundadora do NUPI, Núcleo de Pesquisa em Desenvolvimento Socioemocional de crianças e adolescentes na UFRJ. Além disso, é orientadora Parental Certificada pela Positive Discipline Association, dos Estados Unidos.

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